segunda-feira, 17 de março de 2014


No entanto, o que ocorreu no Brasil entre os anos 1940 e 1990, foi que as cidades não apresentavam uma oferta de empregos compatível à procura, nem a economia urbana crescia na mesma velocidade em que a migração. Em consequência crescia odesemprego e o sub-emprego no setor de serviços, com aumento do número de trabalhadores informais, vendedores ambulantes e trabalhadores que vivem de fazer "bicos". Associado à falta de investimentos e ao reduzido planejamento do Estado na ampliação da infra-estrutura urbana, isto contribuiu para a formação de um cinturão marginal nas cidades, ou seja, o surgimento de novas favelas, palafitas e invasões urbanas.
No processo de povoamento do Brasil, as migrações internas sempre tiveram um papel importante, pois é notável a mobilidade da população brasileira. Os ciclos econômicos brasileiros foram determinantes nesses movimentos populacionais como já começa a mostrar a figura que segue e que será explicada em tópicos posteriores.

Dentre os principais movimentos internos da população brasileira, destacam-se:
·         O processo de ocupação dinamizou-se nos meados do século XVI, com a introdução de uma cultura comercial voltada para o mercado externo europeu, a cana-de-açúcar, e ampliação da sua oferta que, desde o século XIV, havia sido introduzida nas ilhas do Mediterrâneo, no século seguinte se expandiria pelas ilhas do Atlântico e, nos séculos XVI e XVII, seria produzida principalmente no Brasil formando os primeiros núcleos de ocupação européia. Este produto seria a grande atração para as tentativas de conquista de novos territórios, por povos que se integraram na Revolução Comercial e que dispunham de condições de melhor distribuir o produto no mercado da Europa Central, Setentrional e Ocidental.
·         Ainda que o principal produto da economia da colônia tenha sido a cana-de-açúcar, deve-se registrar que desde o século XVI a atividade pecuária teve relevância, pois foi responsável pela formação das primeiras cidades no interior do Nordeste;. Sem dúvida, a Bahia foi o seu primeiro grande centro de irradiação, e, em função disso, importância mais notável na vida econômica da capitania. Com o gado, a área de influência baiana expandiu-se notadamente para o norte e o nordeste, buscando o vale do rio São Francisco, por onde se esparramou – na virada do século – num movimento que acabou por colonizar o Piauí (estimava-se o rebanho baiano entre 650.000 e 700.000 cabeças de gado no final do século XVI). No período enfocado assiste-se ao início desse amplo movimento, cujo anteato foi a “pacificação” dos pioneiros habitantes dessas áreas, a qual gerou pela “guerra justa” os braços de que necessitava a lavoura. Tal expansão colonizou o “sertão de dentro” (margem direita do rio São Francisco), sendo a responsável pela ocupação da caatinga, num padrão de povoamento disperso e itinerante próprio da pecuária extensiva, comandado pelos grandes senhorios baianos (MORAES, Antonio Carlos Robert. Bases da formação territorial do Brasil: o território colonial brasileiro no “longo” século XVI. São Paulo: Hucitec, 2000).
·         Passando-se ao século XVII, pode-se afirmar que o Brasil foi também o maior produtor mundial de ouro, metal descoberto no Brasil Central em 1690. O ouro tornou-se economicamente muito importante para a colônia até meados do século XVIII, à medida que a economia açucareira decaía face à concorrência das Antilhas. A descoberta do ouro provocou um afluxo de imigrantes da metrópole e uma grande mobilidade interna em direção ao centro e oeste brasileiro (Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso). Caminhos de gado e tropas de mulas estabeleceram-se para abastecer os primeiros centros mineradores, constituindo-se nos primeiros eixos da integração interna da colônia (BECKER, Bertha; EGLER, Claudio A. G. Brasil: uma nova potência regional na economia-mundo. 5ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006).
·         A oferta de terras no Vale do Paraíba, próximo aos portos de embarque, o cultivo predatório da terra e a taxa de exploração de escravos favoreciam a empresa do café e entre 1821 e 1830, o café já representava 20% do valor das exportações brasileiras e a partir de 1830 o Brasil tornou-se o primeiro produtor mundial de café que nessa época representava o primeiro produto de exportação brasileiro e sul-americano e em meados do século XIX, os Estados Unidos absorviam mais de 50% das exportações. Esse prolongamento da fronteira agrícola em função da cultura do café, que se alastrou pelo Vale do rio Paraíba do Sul teve seu período áureo entre 1850 e 1929, atingido o Oeste paulista e, em seguida, o norte do Paraná, numa impressionante onda verde apoiada por correntes migratórias do Nordeste e de Minas Gerais. Foi o maior movimento interno de população que houve no Brasil tendo sido responsável por uma mudança profunda na distribuição populacional do país;
·         O século XIX e o início do século XX foram marcados pelos últimos ciclos econômicos, sem dúvida os que mais contribuíram para modelar o território. O último e mais curto foi o da borracha (1860/1920). A demanda mundial de pneumáticos cresceu muito rapidamente com o desenvolvimento do automóvel, e para satisfazê-la instaurou-se todo um sistema. No patamar superior estavam as casas de importação e exportação de Belém e Manaus, e no interior os seringueiros. A maior parte vinha do Nordeste, menos atraídos pela borracha do que expulsos pela terrível seca que devastou o sertão a partir de 1877. Mais de um milhão de nordestinos vieram, assim, instalar-se na Amazônia, e muitos ficaram após o desmoronamento do sistema da borracha. Com esse episódio, começou a primeira onda de migrações internas, prova de que a população brasileira tinha atingido sua massa crítica (em 1900, 17,5 milhões de habitantes; 1920, 30,6 milhões e 1940, 40,1 milhões) e já era, então, bastante numerosa para alimentar correntes internas, das regiões mais consolidadas para as terras novas, sem depender totalmente da imigração 
  • A expansão da Fronteira Agrícola Brasileira para a região Sul, a partir da década de 50, influenciada pela exploração demográfica que se registrava no Brasil a partir dos anos 40, e forçou o governo a criar subsídios para uma agricultura voltada para a produção de alimentos, o que provocou a ocupação daquela região;
  • Na década de 1940, o governo federal criou duas colônias agrícolas no Centro-Oeste (Ceres/GO e Dourados/MT) e migrantes do Nordeste e Sudeste afluíram para essa região. Ainda do Nordeste, migrantes foram em direção à bacia dos rios Araguaia e Tocantins no então Estado de Goiás;
  • A afluência da novas leis de nordestinos à Amazônia, em especial ao Acre e a Rondônia, durante o segundo ciclo da borracha (1942-1945), quando se tentou reerguer a produção, pois os seringais asiáticos estavam tomados pelos japoneses, adversários dos Aliados (URSS, Inglaterra, França e EUA) durante a guerra;
  • A década de 1950 foi a vez do grande fluxo migratório se dirigir, principalmente, para a industrialização de São Paulo e Rio de Janeiro e para Goiás devido à construção da capital federal. Destacam-se também as migrações para o Maranhão (babaçu e arroz), Mato Grosso (garimpo), Rondônia (cassiterita) e Norte do Paraná (café);
  • 1960/1970 é destacado o fluxo migratório para o sul do Pará e norte de Goiás (babaçu), Manaus devido à construção da Zona Franca (1967), norte do Paraná (café) e Mato Grosso (terras para a agropecuária);
  • Entre 1970 e 1991 as unidades da federação brasileira que mais receberam migrantes foram Rondônia e Roraima. Para Rondônia devido a projetos de colonização e assentamento promovidos inicialmente pelo programa do governo militar chamado Polonoroeste (1970-1980) e organizado pelo INCRA, e para Roraima devido ao garimpo de ouro e diamante a partir da década de 1970.
·         Após a década de 1950, milhões de nordestinos migraram preferencialmente para o eixo Rio-São Paulo. Secas prolongadas, alto índice de pobreza e miséria, falta de emprego e más condições de vida, associados ao grande desenvolvimento desses estados, eram os principais fatores que motivaram esse fluxo de migrantes.
·           Em busca de trabalho e melhores condições de vida, essa mão de obra barata foi absorvida por diversos setores (metalurgia, indústria de peças e automóveis, construção civil, empregos domésticos) e desempenhou papel importante no crescimento econômico e na urbanização da região Sudeste.
 Essa migração da atual região Nordeste para o Sudeste (inter-regional) foi acompanhada da migração do campo para a cidade. Foi justamente na década de 1960 que a população urbana superou a população rural no Brasil. As dificuldades de manutenção da agricultura de subsistência e a concentração fundiária são alguns dos fatores que explicam a aceleração dos movimentos populacionais em direção às cidades. Outros aspectos que explicam os fluxos migratórios do campo para a cidade são a mecanização do campo, o desenvolvimento urbano-industrial, a maior facilidade de acesso aos serviços sociais nas cidades e as maiores oportunidades de emprego e de melhoria das condições de vida nas cidades. 
Fluxo migratório do Brasil entre as décadas de 1960-1980
Período
Migração líquida
Crescimento natural
1950/1960
586.000
17.436.000
1960/1970
197.000
23.335.000
1970/1980
185.000
25.000.00
As migrações internacionais recentes no Brasil têm, como países de destino, essencialmente, os Estados Unidos, Portugal, Espanha,Itália, Inglaterra, França, Canadá, Austrália, Suíça, Alemanha, Polônia, Bélgica, Países Baixos, Japão, Paraguai e Israel, assim, quase num movimento inverso ao que se deu no século XIX.
Motivos da emigração 
A emigração sempre foi um movimento populacional muito comum na história. Ela ocorre por diversos motivos, sendo que os principais são: busca de melhores condições de vida, procura de emprego, fuga de uma área de desastre natural ou existência de guerras. Os emigrantes costumam buscar regiões com alto índice de urbanização, pois procuram boas condições de vida (emprego, educação, saúde, etc).
Emigração no Brasil 
No Brasil, podemos citar como principal exemplo de movimento de emigrante o ocorrido nas décadas de 1960 a 1980. Neste caso, milhões de brasileiros deixaram as regiões rurais, principalmente do Norte de Nordeste do país, para buscar uma vida melhor nos centros urbanos da região Sudeste.
os principais países de destino foram Estados Unidos (23,8%), Portugal (13,4%), Espanha (9,4%), Japão (7,4%), Itália (7,0%) e Inglaterra (6,2%). Esse grupo de países representa 70% do total. De acordo com os pesquisadores, "laços históricos" e "redes sociais" explicariam a preferência por esses países mais distantes em detrimento de países fronteiriços. Cabe ressaltar que, somados, os primeiros 10 países europeus na lista (Portugal, Espanha, Itália, Inglaterra, França, Alemanha, Suíça, Irlanda, Bélgica, Holanda) representam 49% do total, mais do que o dobro da cifra referente aos EUA. Dos 193 países indicados como local de residência dos brasileiros no exterior, os primeiros 25 concentram 94% do total.
Países vizinhos:
- Guiana Francesa - o principal destino da emigração proveniente do Amapá;
- Venezuela - recebe a maior parte dos fluxos que partem de Roraima;
- Bolívia - atrai maior volume de emigrantes do Acre;
Pesquisando migrantes no Distrito Federal, de 1960 a 1991, foi encontrada uma relação entre movimento migratório e fecundidade, constatando-se a diminuição do número de filhos naquelas mulheres.Em 1980, por exemplo, de acordo com a pesquisa, a mulher nordestina que continuou em seu lugar de origem teve 6,60 filhos, em média, enquanto a migrante no DF teve 5,66 filhos, no mesmo período. Em 1991, essas taxas tiveram queda de 5,54 e 4,30 filhos, respectivamente. 
Ainda de acordo com o trabalho, as razões para essa baixa na reprodução se constituem nas seguintes: ruptura dos padrões de origem, superação do stress por causa da mudança, a existência de uma fase adaptativa ao novo lugar, além, é claro, da adaptação aos padrões do novo local de moradia, no caso, o DF. 
migração também pode, ainda que involuntariamente, influir na qualidade de vida de uma cidade. Pelo menos é o que nos mostra artigo publicado no Estado de São Paulo, do dia 15/03/98, caderno cidade. Título: Caçapava enfrenta efeitos da migração. 

Conforme informação do texto, a cidade de Caçapava, no Vale do Paraíba, não registrava índice de miseráveis, até que, em meados dos anos 80, esse quadro começou a mudar, piorando consideravelmente a partir de 1991. Neste período, 20,8% da população tinham renda per capita inferior a meio salário mínimo, sendo que 2,4% sequer possuíam um rendimento mensal e 6,28% recebiam até um quarto do mínimo. 
Dois anos depois, ou seja, em 1993, a indigência chegava a 10,1% da população local, composta de 70 mil habitantes. Um recorde na região. 
Próxima a grandes pólos de atração de migrantes, como São José dos Campos e Taubaté, boa parte deles acabou procurando em Caçapava um refúgio, o que veio a prejudicar os serviços sociais da cidade, com o aumento dos níveis de pobreza. 
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Temos a migração de pessoas da zona rural para a cidade, chamada de êxodo rural. As pessoas desse grupo buscam melhores oportunidades de trabalho nas cidades, já que no campo as oportunidades estão desaparecendo com a especialização (monocultura) e automação da agricultura, fazendo com que muitos trabalhadores percam seus postos de trabalho. As conseqüências dessa migração são a macrocefalia urbana (crescimento acelerado e geralmente sem planejamento ou com infra-estrutura inadequada) chegando ao nível de favelização dos grandes centros. 

-A migração de pessoas de um país para outro também pode trazer conseqüências similares às do exodo rural, acrescidas do desemprego para a população local devido ao baixo custo da mão de obra que migrou para aquela região. Pode ainda ocasionar, indiretamente, o aumento dos índices de violência e discriminação por parte dos que perderam seus postos de trabalho. Essa última também pode ocorrer no caso do êxodo rural.